sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008


Eram onze da noite, e aquela dama esperava na sarjeta mais próxima entre lixo e dejetos. Aos trinta e cinco anos sua vida já não se parecia nada com aquilo que havia sonhado em épocas de menoridade, em devaneios profundos acreditava que sairia dos subúrbios de moscou e rumaria vida própria, deixaria de lado todas suas dependências e necessidades, não haveria mais de pedir por comida banhada de piedade ou de morar com outros tantos em um casebre ao fundo de uma antiga olaria, aos quinze anos seu sangue fervia como a luz dos sentimentos e desejos; aos trinta e cinco fervia como toda aquela neve na praça vermelha.
Pobre era aquela senhora, sentada na nevasca gélida, a espera da sua única ligação com a vida: um velho senhor, viúvo, pai de um filho já formado, com quem ela se encontra todas as noites frígidas de moscou, e como de costume todas as noites as onze e meia, o carro do senhor parava na mesma rua, um tanto longe da sarjeta que ela costumava esperar, ela caminha até o velho carro e só retorna as quatro horas da manhã, Sempre voltava; Suja de sangue, com vestes mau-tratadas e o rosto banhado com lágrimas que insistem em ser lágrimas no frio da capital russa. Eu a observou de longe, entre um chá e outro sua vida se passa diante de minha ausência, e estar fora de sua própria existência, me fortalece, aos vinte e cinco anos, espero sentado entre um chá e outro meu trem, observando a melancólica existência desta senhora, sem ter a quem recorrer banhada em uma desgraça que a vida não lhe deu preferência.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Tenho abandonado alguns projetos para aderir a outros, e que projetos! Projetos que percebo meros projetos, vivendo-se sempre do mesmo itinerário de vazios, de planejamentos imiscuidos com lama e lágrimas, e sei que inseguros. Nada parece avançar embora tudo tenha dado certo no passado e quando recordo os caminhos trilhados, o que já vivi sempre se elementa em minha memória mas não ressuscita, minha memória sempre se demonstra fosca. Arranhada pelo subjetivismo com que a invoco e organizo. Nada do que fiz me irrompe o âmago de maneira digna, do modo que fui e senti e desejei tão piamente que o tempo disparasse e eu me libertasse... Mas o tempo jamais dispara. Minhas pequenas conquistas vinham, meus fracassos ficavam sempre em algum fragmento desperto da consciência. Que alertava-me instantâneamente e de maneira lamentável. Sinto orgulho de minhas vitórias mas a aversão ao intocável é inerente aos meus passos e sonhos, sou apaixonado pela misantropia pois os homens me enervam. Acaso pudesse, viveria soterrado num cômodo revestido de livros, silêncio e conforto. Assim poderia escolher o modo que os ambientes e pessoas seriam e o tempo que as desejasse. Tiro fotografias das sombras dos objetos e sinto como se fossem minhas únicas confidentes.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008


Trovões, chuva, é um começo de noite calmo; A loucura aos poucos se foi, a esperança corroída e finada dá seus últimos suspiros, não existe mais nada, sou oco. Vazio de sentimentos e ilusões, vago por cada minuto. A vida pra muitos já recomeçou mas a minha ainda não, e ela insiste em ser revivida, ela não se cansa de voltar todos os dias. Talvez a falta de emoções me coloque aqui sentado a escrever, e por não sentir nada talvez tudo se torne apenas um amontoado de palavras; A chuva chove lá fora, o tempo insiste em reviver sua vida, as decepções já não são novidades, o planejamento se reduz ao agora e os suspiros da esperança já não são mais audíveis, em fim estou sentado com os pés no chão.

sábado, 9 de fevereiro de 2008


O temor de uma certeza me faz delirar e a espera é conivente a toda essa loucura, já pela manhã quente e importuna ela já é presente, o aguardo dos segundos cruzando cada minúsculo mecanismo de minha vida, cada caco da espera me sufoca, me mata me faz menos paciente dentro de uma vivencia que só exige resignação. Esperar por horas, por dias, por semanas, desperdiçando aqueles que poderiam ser os melhores minutos de minha vivência ínfima, tudo poderia ser agora, se não fosse pela culpa da certeza do descaso; A espera se torna longa quando o objetivo se torna fácil, as palavras que edificaram uma nação jamais edificaram seu orgulhos, e o orgulho é apenas mais um cúmplice deste vicio de esperas.